Literofobia

No século em que vivemos, incentiva-se muito a mocidade à leitura. Fala-se tanto nos bons livros e bons leitores, que o indivíduo acaba tendo vontade de lêr. No meu fraco modo de pensar, essa incentivação literária é mau sinal, porque indica que há uma crise atual de leitores em nossa pátria.

Sem dúvida a época agitada e de vida complexa que atravessamos, impede que tenhamos tempo para lêr obras de pêso, meditarmos no silêncio bucólico de uma casa campestre. Vivemos na época da máquina, à qual estamos escravizados. Todos os valores individuais estão como que sintetizados na palavra velocidade, e porisso não temos tempo para pensar. O homem máquina já é uma realidade.

Se não há tempo para pensar, muito menos para lêr. Em nossa terra é fato comprovado êsse descaso pela leitura. Alguém diria: Mas, há no Brasil muitos leitores. Puro engano! Há no Brasil muitos ledores de "romances", jornalécos e tôda a inumerável literatura de "camelot". Há uma crise lamentável de leitores verdadeiros e que dissequem e assimilem obras de valor intrínseco.

Certamente, o elevado índice de analfabetismo seria uma das causas de semelhante crise. Afirmamos, porém, sem qualquer pessimismo, que uma causa evidente é a falta de responsabilidade do brasileiro. Geralmente não nos importamos com as coisas sérias da vida.

Por outro lado, alguns fatores, até agora descurados, vêm agravar o mal que está atacando os escassos leitores brasileiros, - a "literofobia". São, mormente, fatores de ordem técnica.

Por exemplo, quando lemos um livro, como dizemos, de pêso, obra de elevado teor literário, compêndio de quinhentas ou oitocentas páginas, já nos sentimos fatigados só em avaliar o volume da obra. Iniciamos a leitura com um certo prazer, porque o assunto nos interessa. Tal prazer vai-se arrefecendo à medida que avançamos, quando existem os tais defeitos de ordem técnica, tanto de autor, como da imprensa.

A primeira coisa que nos desanima é sermos forçados a lêr quinhentas a oitocentas páginas, onde a impressão é maciça e quase destituída de parágrafos. Mas, a nossa canseira aumenta sensìvelmente quando, além da impressão maciça, os tipos são de tamanho pequeno. Entramos, porém, numa verdadeira agonia quando o corpo da impressão vem crivado de referências, ou então estas se encontram no rodapé da página, em letras miudíssimas. Ah! Meus amigos, que sofrimento, que vontade de ser apenas "ledor"!

Ante essas deficiências técnicas, essa falta de consideração tanto do autor, como da imprensa, quem já é esquivo às leituras, adquire a doença chamada "literofobia".

Ao meu ver, qualquer livro, tanto recreativo como científico ou filisófico, devia ser moldado tècnicamente, à semelhança dos livros para crianças, onde tudo é agradável, quer o tamanho dos tipos, a impressão rítmica, as ilustrações, enfim a apresentação tôda.

Afinal de contas, todos nós possuimos alguma coisa de criança. Oxalá possamos fugir ao terrível mal que ataca muitos brasileiros, a "literofobia".

Júlio O. Rosa
3º Ano Clássico

           
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