Relato Impressionista do Evento de 7/2/98
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Aqui vou fazer um relato muito pessoal, impressionista (como diz o Royzinho [Harper] em seu lindo "aperçu" da vida de seus pais) -- como, de resto, o primeiro parágrafo já indica. Vou me comportar como se fosse um cameraman, registrando impressões. Obviamente, outros cameramen registrariam outras impressões: este é o meu filme. Começo dizendo escrevo no domingo, 8 de Fevereiro de 1998, o dia real do aniversário da fundação do Instituto JMC. Não comemoramos hoje porque a Primeira Igreja Presbiteriana Independente não podia nos emprestar sua Catedral para hoje. Mas já fez muito de emprestá-la para ontem. Obrigado, Elizeu (Cremm). (Por sinal, Elizeu, a liturgia estava muito bonita!) Já é perto das 16 h, e, portanto, já faz mais de 24 horas que o culto começou. Mas ainda me encontro sob o efeito dos eflúvios positivos do evento de ontem. Continuo cantarolando os hinos, vendo as pessoas, reencontrando amigos que não via há mais de 30 anos, revivendo um momento que me pareceu, e ainda me parece, mágico. Quando me deixo envolver nesse clima, não me parece que a reunião de que participei há 24 horas tenha sido ontem e que eu seja o qüinquagenário racionalista, muito cético, meio cínico, que acabei me tornando. Parece-me, isto sim, que a reunião foi em 1963, meu ano final no JMC, quando o colégio fez 35 anos, e que eu simplesmente voltei 35 anos no tempo, tornando-me novamente o menino cheio de vida, alegre, esperançoso, crente, cantante, que eu era quando saí do JMC em 1963. Parece que vivi um episódio de Em Algum Lugar do Passado e custo a me convencer de que, agora, estou de volta ao presente. Fiquei especialmente emocionado cantando no Coral. A música sempre me toca. Fazia pelo menos 30 anos que não cantava em coral. Alguns dos hinos selecionados eu nunca havia ouvido, quanto mais cantado. No início até me perguntei porque a Dorothea (Machado) e a Loyde (Faustini) escolheram hinos que nem todos conheciam. Mas, no fim, concluí que a escolha foi acertada: tínhamos que ser desafiados, era necessário que buscássemos lá dentro aquela capacidade de fazer, e bem, algo que parecia impossível: cantar aqueles hinos todos, em harmonia (quase) perfeita. E as duas estão de parabéns pela selação dos hinos. O ensaio começou às 11 h da manhã. Fomos chegando, uniformizados como nos havia sido instruído: camisas e blusas brancas, calças e saias escuras. A Dorothea, regendo, com um vestido de jeans (que ela trocou por elegantérrimo vestido preto para o culto), suada pelo calor enorme dentro da Catedral, exigindo o melhor de nós. A organista, filha do Jessé Chagas, de Patrocínio, MG (que eu conheci quando manuelino e seminarista, cantando num quarteto masculino, e, depois nunca mais vi), esmerando-se, primeiro no piano, depois no órgão. O João Faustini, embora não fisicamente, estava presente em todos os hinos e em todos os momentos. Musicalmente, foi um culto dele -- pena que ele não pudesse estar ali presente também em corpo. Ensaiamos por duas horas. "Vinde Vós, Fiéis, Cantai", "Fugimos das Iras" (Coral Masculino), "Eleva os Teus Olhos" (Coral Feminino), "Jubilosos Cantos", "Deus ao Mundo Amou", "Formoso Cristo", "Avante! Avante! Ó Crentes" (Coral Masculino), "A Bênção Araônica". Em alguns dos hinos, especialmente "Fugimos das Iras" e "Jubilosos Cantos", não estávamos muito firmes. Fomos almoçar, num restaurante de comida por quilo ao lado da Igreja. Voltamos e mais ensaio. Alguns não se deram conta de que haveria mais ensaio e não apareceram, e o resultado foi de que os baixos estavam realmente mal em "Fugimos das Iras". Levamos um bronca tremenda da Dorothea, como fazia anos eu não levava. Fomos enviados para a capela para repassar o hino com a organista até aprendermos. Foi uma boa lição. Na hora, deu tudo certo. Não fora a energia da regente e provavelmente teríamos dado vexame. Incrível como, no caso dos hinos conhecidos, a letra e a melodia vêm, quase instintivamente, à cabeça, sem precisar olhar a partitura, mesmo passado muito tempo desde que os cantamos pela última vez. "Vinde Vós, Fiéis, Cantai", "Formoso Cristo", "A Bênção Araônica" cantei de cor, letra e música, depois de quase 35 anos sem cantá-los, ou mesmo sem pensar neles. Em relação a outros, dei-me conta da natureza das palavras que até ontem havia sempre cantado com automaticidade: "Avante! Avante! ó crentes! Soldados de Jesus! . . . Hoje há combate horrendo! Mui cedo a paz final!" Este hino, como convém ao seu tom militar, foi cantado pelo Coral Masculino, em fabuloso arranjo que produz uma inesperada harmonia nas vozes masculinas. Meus olhos ficaram, mais de uma vez, cheios de lágrimas, cantando, ali mesmo no ensaio (apesar das brincadeiras do Elizeu [Cremm] e do Cláudio [Faustini]). A emoção de entrar na igreja em processional, cantando "Vinde Vós, Fiéis, Cantai", ao som daquele excelente órgão de tubos, fez-me lembrar claramente de outros momentos, em que, a capela, togados, subíamos pelas calçadas do Jota até o Auditório Waddell, marcando o compasso com nossos passos, e cantando -- sempre cantando! Na hora do culto, modéstia à parte, cantamos bem. A Renée (Camargo), que não cantou, por ter perdido o ensaio da manhã, chegou a dizer que cantamos melhor do que o Coral da Primeira Igreja, mas certamente exagerava (como lhe disse o seu filho, seminarista da Igreja Presbiteriana Independente). O Coral da Primeira Igreja certamente lhe perdoará o exagero e lhe compreenderá o partidarismo. Mas nas circunstâncias, cantamos bem. Depois do temido "Fugimos das Iras", até ganhamos um discreto beijinho da regente, enviado pelo indicador nos lábios, tamanho o alívio que ela deve ter sentido quando se deu conta de que o possível vexame havia sido evitado. Afinal, exceto pelo processional, era o primeiro hino do coral, e poderia dar o tom para o restante como de fato deu, só que foi um tom positivo. Antes e depois do culto, abraços, beijos, carinhos para com pessoas que, às vezes, a gente não via há mais de 30 anos. Da. Elza, presença marcante na vida de tantos quantos passaram pelo JMC, estava lá. Um ícone da escola. Hors concours. Trouxe consigo o filho e a nora. Em termos de colegas, encontrei, primeiro, ainda durante o ensaio, o Neto (Antonio Camargo), que hoje mora em Valinhos, perto de Campinas, e que trabalhou, duarante anos, na agência do Banespa na Unicamp, onde eu trabalho, e, mesmo assim, eu não via há uns 35 anos. Tão perto, tão longe! Dirceu (Xavier de Mendonça), que disse ter ficado emocionado ao ler minha "vinheta" no último Boletim, e que é pastor em Americana (onde também é pastor o Joás [Dias Araújo]). O Dorival (Xavier), nosso craque de bola, que eu também não via há uns bons 32 anos, e que, como ontem soube, acompanha o Palmeiras pelo mundo (pena que seus talentos futebolísticos não estejam sendo mais bem empregados no meu querido SPFC ). O Dorival mora em São Paulo. A "Libby" (Elizabeth), irmã da Natalie (Browne), que me chocou por ter ficado, depois de crescida, tão parecida com a imagem que eu tenho da irmã! A Libby não foi aluna do JMC, mas seus irmãos o foram e seus avós, os Landes, tiveram presença marcante lá! Mas também houve conversas gostosas com gente que vejo com mais freqüência, mas mesmo assim não tão freqüentemente como gostaria: Renée (Camargo, já mencionada), Dinayde (Rocha), Paulo (Cosiuc), João Rhonaldo (de Andrade), Emílio (Eigenheer), Carmelino (Silva), Reinhold ("Ro-Rô" Ortlieb), Cláudio (Faustini), Lydice (Ferreira), Dorothea (Machado), Elizeu e Marli (Cremm), todos do meu tempo (1961-1963). De minha época a grande ausente foi a Sueli (Cavalcanti), que arrumou uma viagem para Israel bem na data do encontro. Mas também foi conspícua a ausência do Assir ("Gordurinha" Pereira) e do Rev. (Olson) Pemberton, que me acostumei a encontrar nessas ocasiões (embora ultimamente andem meio fugidos). Naturalmente, também, faltaram outros, do meu tempo, mas, como eles faltam com mais freqüência, a gente nunca conta com a presença deles: Nivalda (Franco), Miriam ("Mirinha" Sansone), Waldemar ("Dema" Marques), Hélio (Souza), Javan (Laurindo), Natanael ("Nata" Amaral), Eliezer (Rizzo), Waldir (Rickli) . Outros, como Paulo (Gomes), Sinésio (Moura), Carlos (Pizarro), Antonio ("Toninho" Simões), Otoniel ("Tonhé" Marinho), Celso (Martins), Cilas (Gonçalves), Airton (Neves), Ireno (Dias), Deoclécio ("Deuca" Amaral), Robert ("Bob" Lodwick), Josué ("Zeca" Christensen), Hamilton ("Socó" Souza), Octávio ("Tavinho" Stradioto) [que no Seminário foi minha "véia"], Natalie (Browne) e Reacy (Camargo), nunca encontrei nas reuniões do Jota. Deixo muitos nomes de fora, eu sei, mas vou escrevendo conforme os nomes me vêm à memória. [Os maridos que me desculpem, mas em geral usei o nome de solteira das mulheres -- exceto no caso da Marli do Elizeu, e, mais embaixo, da Isva do Josué. E as feministas que me compreendam o "do" -- não é possessivo.] Estavam lá também colegas de outros anos, mas que vejo com freqüência, em função dos trabalhos e das reuniões da Associação: Loyde e Martha Faustini (a Martha acompanhada da filha do Carlos René Egg, que, pela mera presença, me fez lembrar do famoso dueto de seu pai com a Martha, "Jesus o Bom Pastor"), Aracy (Grillo), Lucila (Guimarães), Lucy (Guimarães), Isva e Josué (Xavier), Lecy (Avelar), Ney (Carvalho), Cylas (Rissardi), Joás (Araújo), e outros. Encontrei lá também Felícia (Souza) e Daniel (Raquel), que fiquei conhecendo pela Internet e, por isso, não vejo com freqüência. Ganhei da Dinayde uma foto em que estou vestindo um blusão do JMC que a Felícia levou ao último encontro (Novembro de 1997). Além desses, encontrei colegas de outras turmas, que não via há décadas. João Marinho de Oliveira, hoje me Indaiatuba, que, quando ele era pastor em Rancharia, casou-se, e ao voltar para a Igreja, levando a agora mulher, foi recebido numa festa em que eu, que trabalhava na Igreja de Iepê ou Assis (não me lembro, trabalhei nas duas), declamei aquela famosa poesia, "Suave Caminho" [1]. Havia, também, naturalmente, o Roy Harper, que estendeu sua permanência no Brasil, para participar do culto, devendo agora retornar a Genebra, com quem tive a oportunidade de conviver mais de perto na casa do Takashi (Shimizu) e na casa da Martha (Faustini), na companhia de Annabel, sua irmã, que mora nos Estados Unidos. O Waldo Gonçalves, como o Roy, retardou seu retorno, ele para os Estados Unidos, onde mora, para poder usufruir o espírito do Jota uma vez mais. Foi um prazer vê-lo lá, e conhecer seu irmão. Por aí se vê que o encontro não foi só ecumênico: foi internacional Minha maior surpresa, entretanto, foi encontrar Josué Spina França, que foi colega de meu pai no JMC. Não sei a idade dele, mas passa dos 80 anos. Ele veio me mostrar uma caderneta que meu pai, em 1935, deu a ele e à Ruth Moser (sua namorada na época), com um poema ("Os Cisnes", de Júlio Salusse [2]) e um desenho na primeira página. Mais para dentro, um outro desenho e um outro texto (este em inglês) do meu pai. Coisas de 63 anos atrás que eu nem suspeitava existissem! (A caderneta a Ruth enviou à Martha Faustini e esta a emprestou ao Josué). Mas o que mais me surpreendeu foi o Josué literalmente declamar para mim parágrafos inteiros da "vinheta" que escrevi para o último Boletim (e que está neste site), dizendo que eu consegui captar naquela crônica a essência do que foi o Conceição. Fico feliz que aquele texto, que não teve nenhuma outra pretensão a não ser descrever o que o JMC significou para mim, tenha encontrado eco em outras pessoas. O Dorival Xavier me disse ter feito xeroxes do texto e dado para seus filhos, dizendo: "Leiam isso, pra vocês entenderem o que foi o Conceição". Essas confissões me convencem, cada vez mais, de que o JMC foi uma experiência totalmente à parte, inédita e irrepetível, que, pela sua unicidade, marcou indelevelmente as pessoas. É inacreditável que possa haver unanimidade em relação a uma instituição mas em relação ao JMC houve e há, e é uma unanimidade que afeta as pessoas de uma forma extremamente positiva, intensa, emocional, sempre superlativa. O Conceição parece ter entrado no sangue das pessoas que por lá passaram. Terminado o culto, houve um lanche no salão social. Mais de 150 pessoas estavam lá, e o tempo foi passando, foi passando -- e ninguém parecia querer ir embora. Havia gente que precisava voltar para outros Estados (Rio de Janeiro, Paraná), outros tinham viagens longas para fazer dentro do Estado mas ninguém arredava o pé, todo mundo parecendo querer sorver até a última gota uma convivência perdida que, momentaneamente recuperada, não queriam correr o risco de perder de novo. Josué França me fez prometer várias vezes que iria visitá-lo em São Paulo uma outra forma de fazer continuarem aqueles momentos. Como é que um passado tão longínquo não consegue ficar distante, mesmo depois de tantos anos? Qual a explicação para isso? Hoje estou o tempo todo cantarolando os hinos de ontem. Ficaram na cabeça, ou melhor, no coração -- ou melhor ainda, no sangue. (PS. Alguns colegas, impossibilitados de comparecer, enviaram mensagens pela Internet ou pelo telefone: Joás Castello Branco Gueiros, dos Estados Unidos, Margaret Wright French, dos Estados Unidos, e Gerson Azevedo Meyer, de Campinas). Eduardo O C Chaves [1] "Suave Caminho", de Mário Pederneiras:
[Transcrevo de memória, pode haver pequenos erros] [2] "Os Cisnes", de Júlio Salusse:
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