Rev. Valério Silva

Morreu o rev. Valério... há poucos mêses por toda parte, se divulgou esta notícia dolorosa. Corações amigos, ante o funesto acontecimento, se amarguraram. A dor, transbordando-nos o peito, subiu aos olhos, onde se cristalizou em lágrimas copiosas. Choramos a morte prematura dêste varão bondoso.

O rev. Valério Silva era uma destas almas peregrinas, que para semear o bem vêm ao mundo. Alegre, bondoso e companheiro leal, todos o queriam para amigo. A alma cândida, o ânimo forte e a palestra oportuna nos convidavam a convivência. Dos lábios brotava-lhe fácil a palavra, que confortava o enfermo encorajava o desanimado e alegrava o triste.

Deus o havia predestinado para uma grande obra. A’ semelhança de Samuel, êle ouviu-lhe a voz dêsde a infância. Foi sempre um bom cristão. Ansiava o ministério sagrado. Mas êste anelo ardente da alma tomava-lhe ares de impossibilidade. Era pobre e o cuidado de sua mãe viuva e irmã querida lhe absorvia todo o tempo e recurso.

Mas, quando Deus escolhe, os obstáculos materiais não impedem. Começou os estudos em São Salvador. Estudava e trabalhava como oficial de uma barbearia. Mais tarde se tornou professor de música, geografia e outras matérias. Em 1930, com auxílio de pêssoas amigas, veio estudar no Curso Universitário José Manoel da Conceição. Aquí fez brilhante carreira. Desferiu os primeiros voos na oratória sacra. A palavra elouquente e de unção divina trouxe muitas almas aos pés de Jesus. Eram numerosos os convites para fazer série de conferencias em vários lugares.

Feito o curso pré-teológico, foi terminar os estudos no Seminário de Campinas. Lá, continuou o batalhador, entre dificuldades, a conquistar laureis.

Tendo larga experiência na seara do mestre e por pedido insistente do campo bragantino, o presbitério de São Paulo dispensou-lhe o ano de licenciatura e assim, em 29 de janeiro de 1936, foi ordenado ministro evangélico da Igreja Cristã Presbiteriana. Realizava-se, desta maneira, o seu ideal, que lhe custara amor e sacrifício.

Trabalhou primeiramente, no campo bragantino. Os resultados ultrapassaram a espectativa; houve um reavimento espiritual em todo campo. A Igreja de Bragança, como as árvores frondentes plantadas á margem fértil de regato, cresceu. O relatório pastoral publicado no fim do ano é fascinador. Atividade constante, conversões numerosas, organizações, visitas e viagens são narradas com amor, piedade e modéstia. Querido por crentes e não crentes, permaneceu no campo de Bragança, até princípio de 1938, quando foi removido pelo Presbitério para a Igreja de Pinheiros ( São Paulo), que atravessava uma fase delicadíssima de vida.

Por está ocasião, com júbilo, recebo dêle uma carta. Leitor amigo, nota, cuidadosamente, como êle encarava a situação. Eis um trecho da carta: - "O nosso Presbitério resolveu entregar-me as igrejas de Pinheiros, Santos e congregação presbiteral de Parnaiba. Entrarei, pois, cheio de confiança e fé naquele mar agitado. Espero em Deus que, por entre dificuldades, estabeleceremos a paz e o refrigério, como fizemos no campo de Bragança".

"O campo aquí não gostou da resolução e está mandando protestos; e de lá, a parte amiga do ex- pastor está protestando também a saída dêle".

"Eis o terreno em que pisamos; agora, repetindo as palavras de Lutero: - Deus não me conduz; impele-me, arrebata-me, não sou senhor de mim mesmo, queria estar em descanço, mais sou compelido para o meio das lutas e das revoluções".

"O meu hino favorito, agora, é êste: - "As tuas mãos dirigem meu destino".

Que pureza de sentimento!... Que sublimidade de espírito!... Que vida piedosa!... se revelam nesta carta. Posso garantir-te, leitor inteligente, que sempre assim, encarou os problemas da vida. Estava sempre em comunhão com Deus; a oração era a chave mágica com que abria as portas fechadas pelos obstáculos.

Veio para Pinheiros. Por alguns mêses lutou com o desassombro de quem tinha uma missão divina a realizar. Foi coroado de éxito o seu esfôrço.

Em plena atividade, porém, cheio de planos e entusiasmo é atacado por uma fatal moléstia.

Abigo, vais agora focalizar mais uma faceta brilhante desta vida vitoriosa: A enfermidade brumara-lhe o céu de suas idealizações. Desejava trabalhar e a morte prendia-lhe as mãos. Não blasfemava, não desespera; longe disto. Domina-lhe o ser outro pincípio, ei-lo: "todas as coisas redundam em benefícios dos que amam a Deus". ( Rom. 8-28. E porisso, na angústia do sofrimento, com um sorriso da bondade, saudava os visitantes. Quem escreve estas linhas, guarda na mente um sorriso dêle, nos dias da enfermidade, talvês o mais significativo sorriso que já contemplei.

Morreu ás 22 horas e 5 minutos, do dia 28 de novembro de 1938. Não compreendemos, porque Deus o tirou. Os designos do Creador ultrapassam-nos a compreensão. Uma coisa, porém, sabemos e esta basta. Deus guiava-lhe os destinos, atendendo-lhe, assim, a prece cantante da alma cristã:

"As tuas mãos dirigem meu destino;
O’ Deus de amor! Folgo que seja assim!
Teus são os meus poderes, minha vida,
Em tudo, eterno Pai, dispõe de mim.

Meus dias, sejam curtos ou compridos,
Passados em tristezas ou prazer.
Em sombra ou luz; é tudo como ordenas!
E bemvindo é, sendo do teu querer".

Adauto Araujo Dourado

           
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